CIDADE CAIADA
Bráulio Tavares
- Por mais que se venda a imagem da cidade planejada nas utopias e nas pranchetas, a cidade é o mapa e cicatriz de uma batalha que ainda está muito longe de acabar – se é que um dia acaba.
- A cidade é um chega-pra-lá para a ocupação de espaços, um choque frontal entre variadas tropas, entre numerosas infantarias com lanças – de todos os matizes, ideologias, partidos, alianças tribais. A disputa produz a guerra, e a guerra sempre descansa em negociações – de acordo com o pragmatismo de cada um, porque o número e o dinheiro são solventes universais.
- Certas lanças poderosas de concreto se cravam nas cidades de hoje como os “cronólitos” de Robert Charles Wilson. Monolitos gigantescos arremessados em nossa Terra por um tirano do futuro, que está despejando em nós as sementes que o criarão e dizendo: O seu mundo agora é meu.
- Toda cidade pode virar utopia, maquete, quando submetida ao jato da ducha do tempo. Toda cidade é um labirinto de obrigatoriedades e proibições quando vivemos nela, embora devesse ser um lugar onde o caminhante se localizasse com precisão, se necessário, e pudesse se perder à toa, se estivesse para isso.
- É feliz o caminhante que vê diante de si numerosos caminhos, ao invés de um ou dois. A cidade é uma tecelagem de caminhos. Quem não quer morar num lugar onde existem mais de cem ferreiros, de cem seleiros, de cem marceneiros, de cem relojoeiros, de cem ourives? Quem não quer morar num vórtice de concentração humana e poder escolher entre cem alfabetos, cem idiomas, cem sistemas operacionais?
- Uma cidade que troca de gente como quem troca de roupa. Uma gente que trata de sua cidade como quem está em cidade alheia. Uma cidade habitada apenas pelo amigo do alheio e pela mulher do próximo.
- A cidade onde eu vivo eu a tateio com as mãos.
- Eu queria ter uma casa onde todo tijolo pudesse ser assentado em público, pra todo mundo saber como é bom morar.
- Uma espécie de livro onde uma página pesa uma parede.
- Por onde terão se espalhado os degraus de tantos templos? Eles se dispersaram como os filhos de uma tribo que perdeu. Casas feitas de pedra, depois de poeira, depois de ar. Casas que foram guardadas na memória dos homens, como um conjunto de movimentos dos olhos e das mãos na moldagem de materiais.
- A grandeza de projeto da catedral gótica era geradora de convivência e história. Às vezes uma criança via a colocação de um grupo de andaimes e quando anciã admirava o vitral da parede.
- Para alguns aborígenes, cada touceira de mato tem nome, cada riacho tem uma história, cada pedra no caminho é um pedaço de letra sem música.
- Cidades são todas feitas com o dinheiro de uns e a vida de outros, na aliança do malabarista com o retórico, vendo a cumplicidade com que uma mão lava a outra e a direita não sabe o que a esquerda está fazendo e vice-versa.
- Sinônimo de cidade é conversa, em praça aberta ou cortiço amontoado. É onde melhor se percebe a dica de Mário Schenberg, de que além da matéria e da energia existe uma terceira categoria essencial do universo, a informação. Cidade é compressão de um gás, acelerando tudo, fazendo as fichas caírem cada vez mais depressa, “tudo turbulindo”, “frevendo”, no meio do redemunho.
- Em tudo que você faz você assina quem é. A cidade é o espaço da diplomacia, das culturas diferentes à mesma mesa, ou tirando faísca com as divergências. A cidade que ensina o cumprimento ao estranho, a gentileza com o vizinho, a ajuda desinteressada ao transeunte desconhecido.

